UIVOS, LATIDOS E FÚRIA - Um blog vira lata e sarnento!
     
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A VERDADEIRA HISTÓRIA  DO ASTRONAUTA A SUA MÃE E O CARRASCO E VIDAMORTE

Crítica - Maria Lúcia Candeias

 

Quem ouve o resultado de uma pesquisa realizada na Europa, cuja conclusão foi de que 40% dos entrevistados nunca tinham ouvido falar em Auschwitz, se espanta de ver como somos datados, no sentido de frutos do momento histórico em que vivemos, como afirmou Hegel, o filósofo alemão. Quem vê a peça “A Verdadeira História do Astronauta, Sua Mãe e o Carrasco”, fica com esperança de que por aqui, quem sabe será diferente. Afinal, o novo dramaturgo Jarbas Capusso Filho tem quarenta anos, e, portanto, está longe de ter vivido a situação que retrata, qual seja, a ditadura militar com sua tortura,  em obra, que recebeu menção honrosa no concurso que entrega o prêmio nacional de dramaturgia José Vanderley 2004. Tanto o texto como a encenação a cargo de Waterloo Gregório propõem uma relativização do tempo, visto que o espetáculo é dividido em 3 ambientes: No primeiro deles vemos o torturador (Edson D’Santana) contracenando com uma jornalista (Silvia Pessegueiro) na atualidade. No espaço do meio está o jovem Daniel (Wiliams Aris) e no da direita seus pais (Irene Stefânia e Raphael Messias), vivendo situações que se passam desde a chegada do homem à lua, até a anistia. A diferença principal para com alguns dos textos que enfocam o período, é que se trata de um relato cujo resultado e mais tocante e talvez pegue mais o espectador do lado afetivo, o que talvez seja de grande eficiência. Como não poderia deixar de ser, quem esteve próximo aos porões da ditadura, apresenta-a de um modo muito mais terrível e desesperador, o que pode levar o espectador a virar a face frente a uma revolta justa, mas que ele não tem muita condição e principalmente vontade de encarar, por ser uma realidade dura demais. “Lembrar é Resistir” como já afirmaram Analy Alvarez e Isaias Almada e o principal é não esquecer e nem deixar esquecer, o que é uma missão para quem viveu a época, mas também para os escritores que só imaginam como teria sido. O excelente cenário, já descrito, é assinado por Fabiano Machado. Os adequados figurinos são responsabilidade de Arlete Castro. Mas provavelmente o trabalho mais difícil seja o da iluminação que como não é de costume foi desenhada por Alex Nogueira e Waterloo Gregório. Todas essas qualidades fazer de “A Verdadeira História do Astronauta....” uma montagem imperdível, ainda mais que interpretada com brilho por todo o elenco, na sala Jardel Filho do CCSP, na rua Vergueiro, de terça a quinta.

Quem prefere peças mais líricas deve ir assistir “VidAMORte” no Teatro Sérgio Cardoso, às sextas, sábados e domingos. Tem um sabor de sonho, de fantasia, como se fosse simbolista. Um espetáculo (Lorival Reis) leve e poético. A história é simples (Cia D Teatro com inclusão de algumas falas baseadas em Clarice Lispector) quase toda contada sem palavras, só com gestual. Centra-se na relação de um jovem casal (Andréa Dupré e Daniel Warren) com suas idas e vindas e alguns monólogos muito sábios. Sua busca a de plenitude, tão difícil senão impossível de encontrar, mesmo em alguns momentos especiais. Tudo transcorre em cenário quase que vazio (Cia de Teatro), com direção de arte de Carla Tennembaum. Os delicados figurinos foram concebidos pelo grupo. Cabe destacar a delicada e competente iluminação de Aline Tunes e do próprio ator, assim como as gaiolas supostamente com pássaros de Paulo Bordhin. É um tema semelhante ao de “Dilúvio em Tempos de Seca” em cartaz no SESC Anchieta, mas tratado sem ceticismo, como o desse último espetáculo citado, cujo elenco é encabeçado por Giulia Gam dando um show de interpretação como também Wagner Moura.

 

Maria Lúcia Candeias - Doutora em teatro pela USP - Professora da Unicamp



 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 15h08
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O CÉU É CHEIO DE UIVOS, LATIDOS & FÚRIA DOS CÃES DA PRAÇA ROOSEVELT

Crítica - Maria Lúcia Candeias

São Paulo, 19 de fevereiro de 2005 - Já faz algum tempo que os monólogos são moda por aqui. Tanto que podemos encontrar, em São Paulo, três remontagens de espetáculos desse tipo, escritos por autores locais, e que estiveram em cartaz há cerca de cinco anos: "Kelbeling", que está no Sesc Belenzinho, e "O Barril" e "O Divã", no Teatro Augusta. Além disso, ainda há a já programada reestréia de "Os Ignorantes", no Teatro das Artes, para aumentar o volume desse contingente. O mais bem sucedido desse gênero, no momento, é "O Porco", do espanhol Antonio Andrés de La Peña, que está no Espaço Viga. É comum julgar que produções com poucos atores são resultado de falta de dinheiro. Mas a realidade é que em um mercado cultural próspero como o da Europa também se produz um número muito grande de monólogos na atualidade, e que a discussão desse tema e de suas ramificações anda na crista da onda. O que nos leva a crer que ou os europeus andam em crise financeira ou nossas conclusões são precipitadas.
Não se deve perder de vista que existem vários tipos de monólogos quanto à sua construção ou à sua definição (como solilóquio e monólogo interior ou mesmo com mais de um personagem, o monodrama e diálogo monológico). Em geral, se pensa apenas naquele gênero de encenação mais tradicional, na qual o ator simplesmente fala com a platéia. Basta ver que em todos os textos com apenas um ator, e que estão atualmente em cartaz ou por estrear, utilizam essa técnica. Alguns deles, como é o caso de "O Barril" e de "O Céu Cheio de Uivos, Latidos e Fúria dos Cães da Praça Roosevelt", simulam um diálogo com um interlocutor ausente. No caso do primeiro, isso se faz com um ator interpretando as duas personagens e, no do segundo, fazendo crer que há alguém entrando ou saindo de cena. Esse recurso só ocorre em momentos curtos, mas é denominado como monólogo dialógico. O que mais impressiona em "O Barril", denominado também de "Por Água Abaixo", é a direção de Vivien Bucup. Mestre de expressão corporal, suas marcações, do começo ao fim, apresentam-se como uma coreografia de extremo bom gosto e coerência. Mostram a atriz e autora Ângela Dip contracenando com um barril por 45 minutos. Além disso, a peça, escrita por uma das fundadoras do "Terça Insana" (em cartaz há mais de dois anos, todas as terças e com enorme sucesso) tem momentos muito engraçados e outros tragicômicos, ainda mais interpretados com a competência dessa comediante. Vale destacar o excelente trabalho de cenografia e figurino.

O mesmo pode ser dito de "Cães da Praça Roosevelt", assinados por Fabiano Machado (candidato e indicado para o Prêmio Shell de figurinos por "Transex"). O cenário é um enorme quebra-cabeça que a protagonista não pára de tentar completar, e com ela o público aficionado deste tipo de jogo. Noemi, interpretada com competência por Soraya Aguillera, é uma prostituta que vê o mundo através de uma janela num prédio da praça Roosevelt. Sua experiência de vida a faz contemplar o mundo na maior parte do tempo com desagrado, o que, mesmo assim, não tira dela a esperança de um futuro melhor. O texto do jovem dramaturgo Jarbas Capusso Filho, dirigido por Alberto Guzik que, depois de muitos anos considerado um dos melhores críticos teatrais de São Paulo, tem se dado bem na nova função, tem instantes de muita lucidez. É sua obra mais recente. Há outra em cartaz no CCSP (Centro Cultural São Paulo) "A Verdadeira História do Astronauta, a sua Mãe e o Carrasco" (ele parece adorar títulos imensos). Nessa nova encenação, há que destacar a adequada iluminação da fotógrafa Lenise Pinheiro, e a excelente trilha sonora do ator Ivam Cabral. Como se vê, quem gosta de monólogos não vai sair das platéias nesse semestre.

Maria Lúcia Candeias - Doutora em teatro pela USP e professora da Unicamp


Fonte: Gazeta Mercantil, 19 de Fevereiro de 2005.


 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 13h34
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SOBREVIVENDO NO INFERNO

Hoje acordei com vontade de ouvir Racionais. Pus pra rolar "Sobrevivendo no Inferno". Du caralho! Não sou um expert em Rap. Na verdade, conheço mais o trabalho do Racionais. Não fui criado na periferia brava. Lá, onde o bicho pega. O tempo todo. Nunca abri a janela e dei de cara com um presunto crivado de balas. Sei que não sou o cara mais indicado pra falar dessa realidade. Mas o trampo dos caras é de fuder. Os caras escrevem umas putas crônicas do dia à dia deles. Nas quebradas da zona sul de São Paulo. Esse papo de Hip-Hop veio pra politizar essa garotada. Pra abrir a mente mesmo. Eles mandam mensagens fortes pra comunidade. Falam da realidade do crime. Que é foda. Que mais cedo ou mais tarde, vai pro saco! Não curtem uso de drogas. Dizem: Se você quer ser alguém mano, fique longe das pedras. Trouxe um pouco de luz sobre os fatos. Sobre a condição de ser pobre. Que as chances são rarefeitas nessa realidade. Que o esforço vai ser, no mínimo, o dobro de qualquer cara que nasceu em condições menos fudidas. Saber que é muito tentador e, muitas vezes, a única solução: Mandar ver. Descambar no crime. Quem pode julgar? Eu? Você? Esse estado de merda e corrupto, incompetente e, sempre, muito injusto com essas comunidades? Comédia. Dá licença! Em São Paulo, de cada 100 homicídios, apenas um (azarado e pobre, com certeza) é solucionado e cumpre pena. E onde ocorre a maioria desses homicídios?! Um tempo atrás, Jardim Angela ficou famoso por ter a maior concentração de botecos da América Latina. Acho que era de uma birosca pra cada dez casas. As opções são poucas. Escolhe aí: igreja universal ou uma glock 9mm e mão pra cabeça! Sei lá. Como disse, não sou o cara mais indicado pra julgar. E me atrevo a dizer: Dúvido que alguém possa! Têm uns deputados, tipo matador da ROTA, facistas que são muito afim de aprovar a pena de morte. Cara, num país onde até o judiciário é corrupto! Quem seria executado nessas condiçõs quase insólitas de justiça?! Conheço muita gente que mora nas quebradas. Tinha um ator, garoto, de um espetáculo meu que morava no Capão. Ele só podia ensaiar até um certo horário. Sabe por quê? Porque na vila dele tinha toque de recolher. DIARIAMENTE. Do outro lado, tem uma polícia corrupta, violenta e TOTALMENTE despreparada e preconceituosa. É preto? É ladrão. E tome escracho. Tapa na cara. Humilhação. É assim que funciona. E TODO mundo sabe. Estado, imprensa, OAB, o caralho. Ouço falar de umas iniciativas, Ong’s que começam a desenvolver uns trabalhos por lá. Mas sempre é muito pouco. Sempre é paliativo. Sempre insuficiente. Aí, a nossa imensa e idiota "elite" se fecha em condomínios e gasta fortunas com sistemas de segurança. Câmeras, cães, alarmes, bruta montes, arame farpados, o escambau! E não adianta porra nenhuma. Essa miséria que eles produzem, se apresenta de AR-15, uns vinte caras e invadem a porra do condomínio. Ou, o bunda cheirosa, morre no semáforo mesmo. Tiro na cabeça por causa de rolex (como diria Noemi). O caldo tá grosso. A guerra tá instalada. E o bicho tá pegando. Lá e aqui. Enquanto isso, não aparece um porra de juiz, um cara homem de verdade, de brio e coragem pra botar o MALUF NA CADEIA??!! Falei?!

Racionais Mc's

Capitulo 4 Versículo 3

"60% DOS JOVENS DE PERIFERIA SEM ANTECEDENTES CRIMINAIS
JÁ SOFRERAM VIOLÊNCIA POLICIAL
HÁ CADA 4 PESSOAS MORTAS PELA POLÍCIA 3 SÃO NEGRAS
NAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS
APENAS 2% DOS ALUNOS SÃO NEGROS
HÁ CADA 4 HORAS
UM JOVEM NEGRO MORRE VIOLENTAMENTE EM SÃO PAULO
AQUI QUEM FALA É PRIMO PRETO MAIS UM SOBREVIVENTE"

(Jarbas Capusso Filho)



 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 12h09
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ACHEI!

Nem me perguntem como. Mas esta crônica tinha sumido do meu blog. Apareceu de novo, do nada. Nem quero saber o porquê. Mas taí. Gosto desse texto.

UMA PEQUENA E SINGELA CRÔNICA DE NATAL

Paulo, entrou no apartamento 1963, “Boa safra” pensou. Ano de seu nascimento. Há muito tempo não ficava num hotel cinco estrelas como aquele. Não trazia bagagem. Disse pro gerente que estava no carro e depois pegava. Estava vestido com um terno italiano e gravata de seda. O seu melhor terno. Mil dólares, na época. Abriu a janela para sentir a brisa da noite. Olhou no rádio relógio ao lado da cama. Marcava 23:05 hs. Era noite de natal e ele só queria ficar ali, sozinho. Pegou o telefone e falou: “Serviço de quarto? Eu quero uma garrafa de Black Label” Pensou melhor e disse: “Não, não! Vocês têm Blue Label? Ótimo! Então me trás uma garrafa e bastante gelo” Pensou: “fudido, fudido e meio” e riu. Pensou que podia chamar uma puta. Uma puta bem gostosa que chupasse o seu pau. Mas olhou no relógio e viu: 23:15 hs. É, não daria tempo. Já era quase natal. E pensou: “Será que se eu desse uma grana pra camareira ela chupava o meu pau? Não... acho que não”. Aí pensou: “Talvez se eu batesse uma punheta” Nesse instante bateram na porta: “Serviço de quarto senhor” Abriu a porta e o garçon entrou. Colocou a garrafa, o copo e o gelo na mesa. Antes de sair, Paulo deu uma nota de 50 para o garçon e pensou: “Fudido, fudido e meio” Abriu a garrafa em quase desespero e pensou: “Puta que los pariu! Blue Label! Quanto tempo!” E bebeu uma, duas, três doses, como se aquilo fosse a fonte eterna da felicidade. E era. Tomou mais três doses, caprichadas. Podia sentir o uísque de 500 paus a garrafa agindo no seu cérebro e pensou: “Porra! Como isso me faz bem!” Olhou para o relógio e viu: 23:38 hs. Lembrou da sua esposa, de com era linda. Lembrou dos seus dois filhos. O caçula estava com cinco anos e o mais velho, que já curtia um rock, com dezessete. Pensou na casa na praia, nos carros, nas viagens para a Europa, todo ano. Mas lembrou do seu sócio. Amigo de infância. O Rafael. Ainda podia ouvir a sua voz: “Larga a mão de ser cagão, Paulo. O negócio é moleza. Você acha que eu ia enfiar a gente e a empresa numa roubada? Tá todo mundo se dando bem. Só a gente vai ficar com essa cara de otário?” Aí lembrou do pedido de falência, do oficial de justiça e do Rafael que desapareceu. “O filho da puta deve estar na Havai” pensou. Olhou para o relógio e viu: 23:55. Pegou uma cadeira e pôs perto da janela. Estava no 16º andar. Subiu na cadeira e sentou na janela. A noite estava um pouco fria. Olhou a luzes da cidade. Quando os primeiros fogos, anunciando o natal, começaram a estourar iluminando aquela noite fria de São Paulo, pensou: “Fudido, fudido e meio”. Ele respirou fundo, deu um impulso com as mãos e pulou. No meio do caminho ainda pensou: “Puta que o pariu! Quem foi o corno que disse que a gente já chegava morto lá embaixo?!” Vendo o chão se aproximando rapidamente ainda pensou: “Caralho, devia ter tomado toda a porra da garrafa e batido uma punheta!!”

(Jarbas Capusso Filho)




 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 14h40
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