UIVOS, LATIDOS E FÚRIA - Um blog vira lata e sarnento!
     
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DOCA, PINDUCA E OS VIKINGS

Ele subia a rua. Era noite. Tarde da noite. E gritava: "Porra" "Que merda". Ele subia na contramão. Sentido bairro. Na altura do cemitério. Os carros passavam e os motoristas gritavam. "Sai da frente viado!" "Vai bebum!". Ele nem ouvia. Ele não estava ali. Pensava no filme que assistiu. A única coisa que lembrava da sua infância. Um filme de vikings. Lembrava do navio incendiando. Um enterro viking. Pegou a garrafa de pinga e bebeu. Muito. Ele puxava uma carroça. Estava muito cheia e estava muito, muito pesada. Era uma noite fria e de chuva fina, mas estava sem camisa. Suava muito e todos os seus músculos estalavam. O esforço era enorme. Era uma subida. E gritava: "Porra de mundo" "Caralho". Seu nome era Doca. Seu nome não, apelido. Lógico que devia ter um nome. Mas o chamavam de Doca a tanto tempo que nem se lembrava mais do seu nome verdadeiro. O que vai no RG. Não tinha mais... RG. Não lembrava mais dos seus pais. Da cidade onde nasceu. De quando nasceu. Anos de rua acabam desbotando a mente. O que não desbotou, amarelou. Doca morava na carroça mesmo. Na verdade, debaixo dela. A cidade era a sua casa. E dormia onde queria. Doca não tinha amigos. Era de falar pouco. Não confiava nas pessoas. Ele gritava com toda força dos pulmões: "Merda de vida!". Parou em frente ao cemitério. E olhou aquele enorme portão. E viu os túmulos. E começou a chorar. Muito. Como a anos não chorava. Foi na carroça e pegou uma caixa de papelão. Dentro estava o Pinduca. Um vira-lata. Pinduca era grande e todo malhado. Companheiro inseparável das ruas. Companheiro de quinze anos. Pinduca morreu de repente. Dormiu e não acordou mais. Doca sentou na guia com o Pinduca no colo. Pensou em rezar, mas não sabia. Doca queria enterrar ele. Uma vez ouviu alguém falar que tinha cemitério de animais. "Onde seria?" Doca pegou a garrafa de pinga e tomou. Muito. Queria não sentir tanta dor. Uma coisa no peito o incomodava. Era saudade. Era tristeza. Era a solidão que chegava, para ficar. Lembrou do navio incendiando. Do filme. Deitou, com cuidado, o Pinduca na carroça. Pulou o muro do cemitério e pegou muitas flores de um túmulo. Trouxe para Pinduca. E lembrou da noite que encontrou ele. Filhotinho, numa praça. Abandonado por alguém sem coração. Nem havia desmamado. Doca comprou leite e mamadeira. Com o dinheiro da pinga. E cuidou dele. E Pinduca nunca esqueceu. Ficaram amigos, para sempre. Doca esvaziou toda a carroça. Deixou Pinduca bem no meio dela. Pegou as flores e a enfeitou. Pegou um galão com gasolina que o moço do posto deu para ele. Derramou por toda a carroça e muito mais no Pinduca. Ascendeu um palito de fósforo e atirou. As chamas ficaram enormes rapidamente. Iluminando a noite. Iluminando o rosto marcado pelas ruas de Doca. Iluminando suas lágrimas. Iluminando a sua dor. E Doca saiu andando ladeira abaixo. Sem olhar para trás. Com a garrafa na mão. Confuso. Sem o Pinduca. Sem o seu amigo. Sem destino. Só.

(Jarbas Capusso Filho)



 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 11h32
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ESTRÉIA NO CCSP

Ontem foi a estréia de A VERDADEIRA HISTÓRIA DO ASTRONAUTA, A SUA MÃE E O CARRASCO, no CCSP. O teatro lotou! E estavam todos os amigos lá. Isso é melhor ainda. A minha irmã, muito querida, foi lá e clicou. Vou colocar umas fotos aí pra vocês verem o resultado. Aos amigos, já sabem: quem quiser ir e estiver naquela dureza franciscana, é só ligar que a gente descola uns convites.

SILVIA PESSEGUEIRO E EDSON D'SANTANA

   

RAPHAEL MESSIAS E IRENE STEFÂNIA

EDSON D'SANTANA E WILLIAN ARIS

DE QUEBRA, COLOCO UMA FOTO DA MINHA SUPER-AMIGA-BACANA ATÉ DEPOIS DE AMANHÃ, A ATRIZ ZEZA MOTA KURT QUE ACABOU DE RETORNAR DE UM TOUR PELO SERTÕES DAS ALAGOAS E NOS CONTOU UMAS PARADAS MANEIRAS DO LAMPIÃO E DA RAPAZIADA ENDIABRADA. ESTAMOS ARMANDO UMAS COISAS DE TEATRO PARA ESTE ANO!

 (Jarbas Capusso Filho)



 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 11h03
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GUIA COMPLETO PROS MEUS CHEGADOS MUITO LOUCOS & ALUCINADOS

Tá cada dia mais difícil encontra uma pessoa, um amigo, que não esteja tomando um remedinho pra acalmar os nervos (tarja preta, lógico! Tem que dar barato, não é?) fazendo um tratamento qualquer... no mínimo, uma análise básica. Existe a ditadura da felicidade. Tem que estar feliz e sorridente o tempo todo. Senão, o seu terapeuta (que de besta não tem nada) te tasca uns comprimidos e diz: Não é forte não. É só pra relaxar! Sei... Quando o indivíduo sai babando e morde a mãe na bunda, ninguém entende porra nenhuma. Meu velho, é o seguinte: se não estiver sorrindo o tempo todo, que nem o Silvio Santos, você é considerado um cara chato. (se vocês, um dia, me virem sorrindo o tempo todo, por favor, disca 190 e chama o resgate!) Cara, você não pode deprimir, nunca! Se acontecer, toma um (ou três) prozac e já era. A vida é curta e você tem de estar alegre e saltitante, SEMPRE, o tempo todo. Mano, se você for numa festa e não ficar pulando que nem pipoca... hum! Mas não se preocupem não. A minha amiga talentosa, charmosa e muito lôca, Aline Abovski, disse que loucura é um presente de deus. É só pros escolhidos, meu! Tá pensando o quê? Que é assim? Vai tirando uma de louco e coisa e tal? Louco nasce, cumpadre!  Bom, pra ajudar os meus amigos very crazy a se localizarem nas suas loucuras, alucinações & delírios, descolei esse manual prático de aprendiz de Napoleão. Fiquem a vontade! (só de bater o olho, já vi que sou multimídia! Bingo!)

Défcit de atenção (DDA)
O que é:
Transtorno neurobiológico caracterizado por desatenção, inquietude e impulsividade

Síndrome do pânico
O que é:
Ataques recorrentes de ansiedade aguda e intensa

Bipolaridade (PMD)
O que é:
Transtorno afetivo caracterizado por altos e baixos

Personalidade múltipla
O que é:
Distúrbio dissociativo em que a pessoa se comporta como se estivesse "fora de si"

TOC
O que é:
Obsessão e compulsão com ansiedade extrema
Demência
O que é:
Deterioração da função mental.

(Jarbas Capusso Filho)



 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 11h22
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REFLEXÕES AÉREAS COM PENÉLOPE ll

Ele refletindo:

- A capital da Índia é Nova Deli. Tem 1.045.845.226 de habitantes.O tamanho dela: 3.287.590 km2. E o PIB per capita é de: 2200 dolares. Religiões: Hinduismo: 70% Vaishnavitas, 25% Shaivitas, 2% neo-Hindus e Hindus reformistas. Tem 25 idiomas e... mais de 2.500 dialetos. Porra!!!

Informação de extrema importância:

 - Distância daqui: 13.754.288 kms!!!É longe. É muito longe. Na verdade, é longe pra cacete!!! Pensou.

(Jarbas Capusso Filho)



 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 10h44
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A VERDADEIRA HISTÓRIA DO ASTRONAUTA, A SUA MÃE E O CARRASCO

Um dia, estava num ônibus, ouvindo no meu velho walkman, Chico Buarque. Ouvia "Pedaço de Mim". Tem uma parte que, na minha modesta opinião, é um dos momentos mais criativos e inspirados de toda a obra do Chico. Que diz: "A saudade é o revés de um parto, é arrumar o quarto do filho que já morreu" Fala verdade: É ou não é de fuder?! Isto sim é poesia de verdade! Bem, fiquei com isso na mente e resolvi falar de uma mãe que tenha perdido um filho. Resolvi falar do jeito que sei: no teatro. E escrevi "A VERDADEIRA HISTÓRIA DO ASTRONAUTA, A SUA MÃE E O CARRASCO" Que narra a trajetória de Julia (em 1979) em busca de seu filho, Daniel (desaparecido em 1969) nos porões da ditadura, no Brasil. Espetáculo que estréia dia 18 de janeiro no CCSP, Sala Jardel Filho. Quem tá produzindo a parada é o ator Willian Aris (que no espetáculo faz o Daniel). Na direção tem o Waterloo Gregório e no elenco a Maravilhosa Irene Stefânia, Rafael Messias, Edson D’Santana e Silvia Pessegueiro. Equipe ok. Estou desencanado com o resultado porque sei do talento e garra de todos! Com gente bacana assim, dá pra relaxar. O Willian revelou ser um grande produtor. É mais um que, mesmo sem um puto no bolso, levantou o espetáculo. O cara é lutador. (Cá entre nós, será que não tem um puto nessa administração municipal ou estadual ou do raio que o parta que não vê o sacrifício dessas pessoas pra realizar um espetáculo? Que merda! Agora que mudou a administração, com novo secretário: Emmanuel Araújo - Trabalhei com ele na pinacoteca do estado no projeto teatral "Retrato de Nora Enquanto Joyce". Mas acabou a grana e o espetáculo não decolou. Quem já viu este filme levanta a mão! E fica todo mundo na maior expectativa do tipo: E agora, o que mais vão fuder no teatro? É, porque neste país, a gente só fica esperando o passaralho pousar. Só não sabemos em no ombro de quem? Nem queria fazer um parêntese tão grande, mas este assunto é foda!) Voltando pro espetáculo, ainda tem cenários do queridão Fabiano Machado, Figurinos de Arlete Castro, iluminador e operação de som Alex Nogueira, fotos Marcela Randolph e arte gráfica do Eduardo Castanho. É isso. De quebra, o Waterloo resolveu escrever uma parada sobre o espetáculo e da nossa parceria. Ai vai:

Quando li "A Verdadeira História do Astronauta, sua Mãe e o Carrasco", de Jarbas Capusso, meu nariz deu uma torcidinha: "O que tem a ver falar de ditadura e torturas hoje em dia?". Mas topei dirigir uma leitura dramática do texto no Espaço Bastidores, apesar de conhecer o Jarbas havia pouquíssimo tempo. Mas duas ou três micro conversas murmuradas ao pé dos respectivos ouvidos, quase segredadas, foram suficientes para que eu percebesse que tínhamos muitíssima coisa em comum. Surgiu então uma amizade cúmplice instantânea. Além disso, o Jarbas é um cara destravado, entrão, loquaz, simpático e um marqueteiro de si próprio incomparável. Admiro gente assim, pois sou exatamente o contrário. Durante os ensaios da leitura dramática, o obrigatório mergulho aprofundado no texto fez com que rapidamente se disipasse aquela minha primeira impressão do "Astronauta", impressão ligeiramente preconceituosa e prenhe de pedantismo intelectual, admito. "A Verdadeira História do Astronauta, sua Mãe e o Carrasco" não é um texto-panfleto e tampouco se limita a comentar os horrores que a nação brasileira foi submetida durante o período em que os militares ocuparam o poder em Pindorama. Nada disso. Esta obra do Jarbas utiliza elementos da história recente do Brasil como um pano de fundo para escancarar sem pudor a dor humana. E não é qualquer dor. É aquela dor abissal, inconcebível, somente conhecida pelas mulheres, maravilha da natureza capazes de conceber e gerar vida em seus ventres, poemas em si próprias. Dor da mulher-mãe que perde um filho. De uma mulher, em tudo linda, que perdeu seu filho não pelas mesmas forças naturais que a fizeram gestá-lo e pari-lo, mas pela forças brutais, primitivas e trogloditas necessárias para que os militares conseguissem se manter no poder. dor e o sofrimento da Júlia do "Astronauta", derivados da incerteza sobre o destino do filho desaparecido ao longo de dez anos, não é autocomiserativa nem revela uma personagem anêmica. Jarbas soube imprimir dimensões grandiosas, quase épicas a esta dor superlativa, de modo a nos proporcionar algum acesso àquilo que passaram, e continuam passando, centenas de mães, esposas, filhas e irmãs que perderam seus homens - mortos ou desaparecidos - para o regime militar. "A Verdadeira História do Astronauta, sua Mãe e o Carrasco" é um texto denso e tenso. As cenas da via-crúcis de Júlia são intercaladas por fortes cenas de interrogatório em que o filho de Júlia é submetido a torturas psicológicas e morais. É um texto impactante que certamente irá capturar o público pela emoção. É também um texto que está contribuindo de modo lúcido e sóbrio para um debate que continua vivo na agenda política brasileira. E contribuindo para que um dia, quem sabe, as feridas abertas a partir de 31 de março de 1964, finalmente se cicatrizem. Quando surgiu a possibilidade do "Astronauta" ser produzido, não hesitei em aceitar o convite para dirigir o espetáculo. Meu currículo pessoal não apenas será enriquecido. Tenho certeza que será engrandecido. Waterloo Gregório

(Jarbas Capusso Filho)

 

 



 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 10h32
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