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O VELHO CHICÃO

Neste natal, ganhei de uma amiga - uma super amiga - um box com cinco CDs do Chicão. Porra, cresci ouvindo o cara. Revisitando a obra dele (de uma maneira mais intensa e continua nestes últimos dias) dá pra sacar a dimensão do talento do homem! De quebra, roubei do blog do Marião (o Bortolotto) trechos da entrevista (O Marião selecionou) que o velho Chicão deu pra folha . De fuder! Confere aí as idéias dele e avalia se o cara "envelheceu!"

Na alta classe média, assim como já houve um certo esquerdismo de salão, há hoje um pensamento cada vez mais reacionário, com tintas de racismo e de intolerâncias impressionantes. (...) O medo da violência na classe média se transforma também em repúdio não só ao chamado marginal, mas aos pobres em geral, ao sujeito que tem um carro velho, ao sujeito que é mulato, ao sujeito que está mal vestido. Toda essa indústria da glamourização, de quem pode, de quem ostenta, de quem torra dinheiro -enfim, ser reacionário se tornou de bom tom. As moças bonitas no meu tempo eram de esquerda. Hoje são todas de direita (risos).(...) Boutades às vezes racistas, preconceitos de classe, manifestações de desprezo mesmo pelos mais pobres se tornaram algo muito comum e socialmente valorizado.(...) Vejo um pensamento cada vez mais conservador, até mesmo na aparência das pessoas, todo mundo arrumadinho...

O Lula sabe o que o cara do rap está cantando. Ele conhece aquela voz. Outros podiam não conhecer, mas o Lula sabe exatamente o que é aquilo, não há de esquecer. O Lula não tem o direito de ignorar isso.

O Brasil ter eleito Lula contradiz tudo o que eu disse há pouco a respeito de um país que parece cada vez mais estar contra gente como o Lula. E volto a repetir: não vejo apenas um sentimento contra o marginal, o traficante, o ladrão. Mas contra o motoboy, contra o desempregado, contra o sujeito que não fala direito, isso apesar de a elite brasileira falar muito mal o português. Constato um sentimento difuso quase a favor do apartheid social.

Mas há uma demanda cada vez maior para assuntos fúteis. Nos sites da internet isso é muito evidente. Qualquer coisa parece ser assunto. Fulano desceu em Congonhas (risos). Isso não é notícia, evidentemente. Mas tem que preencher os espaços, tem que botar foto de artista descendo do avião... Estréia, então. Eu em geral não vou mais a estréias, porque muitas vezes a platéia trabalha mais que o artista. Tem que estar bem vestido, a sua roupa vai ser comentada, essas bobagens todas. Minha empregada outro dia ficou com vergonha porque apareci com a mesma camisa em dois acontecimentos sociais (risos). Isso deve ter ocorrido mesmo. Acho que não estava atento ao meu figurino (risos). Além disso, você é quase sempre solicitado a fazer resenhas críticas no corredor do teatro, tem que sair de casa preparado para estar inteligente, dizer se gostou, por que gostou. Isso quando não enfiam o gravador na sua cara na saída do cinema para saber o que você achou da reunião do Copom, se você acha que a taxa de juros vai cair meio ponto, se o viés é de baixa ou de alta.

O clima hoje na cidade é muito mais pesado. Para não falar lá de cima, na própria zona sul já há territórios demarcados. Eu conheci a praia como um espaço democrático. Hoje em dia já se sente no ar a idéia de que vai existir logo uma fronteira entre Ipanema e o Leblon. Tem um pessoal na altura do Jardim de Alá [moradores de um cortiço na rua do canal que divide Ipanema e Leblon] que desce ali e ocupa a praia. Vira uma paranóia, vira uma hostilidade com esses garotos que ficam circulando ali. Assaltar na praia é o pior negócio que existe. De vez em quando acontece. No dia seguinte, vem a polícia e enfia os meninos no camburão, quando não faz coisa pior. Eles querem tirar da praia, sumir com eles dali. Não vai ter onde botar esses meninos.
As soluções sugeridas para isso, as coisas que eu leio nas cartas dos leitores dos jornais, em geral são fascistas. Virou moda responder a quem defende os direitos humanos com o trocadilho infame dos "humanos direitos" contra os vagabundos que nos retiram o direito de andar livremente pelo calçadão. Isso quando não se defende abertamente a pena de morte, a reclusão dos garotos de rua, a diminuição da maioridade penal, a prisão perpétua. Eles querem exterminar com os pobres do Rio. Se puderem sumir com aquilo tudo -ótimo. Os meninos são os inimigos, são os nossos árabes, são os nossos muçulmanos.

Eu não vejo outra saída para a violência ligada ao tráfico senão a descriminalização de alguma forma, não sei se total ou parcial, das drogas.Lembro de ter lido nos jornais que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, era favorável a essa idéia quando tomou posse. Não sei porque o governo não levou e não leva essa discussão adiante. Isso pode ser desgastante para os índices de popularidade do governo, talvez por isso ninguém toque no assunto.
Talvez pensem que não é o momento de enfrentar o problema em razão de alianças e de compromissos com os evangélicos do PL, essas coisas. Mas se não enfrentarem o problema agora, quando é que vão enfrentar? Se o Lula não enfrentar... Isso tem a ver com tudo o que a gente estava falando antes, com o rap, com o que os garotos da periferia estão falando, com a falta de perspectivas, com a violência toda que está ali, manifesta nas canções.
O Lula sabe muito bem o que é isso. Se não encarar isso, não sei quem vai fazer. Não entendo por que não se discute isso a sério.(...)
 Entendo os compromissos, o FMI, a dívida etc. Tudo bem. Mas isso não tem nada a ver com essas outras omissões. Ou é isso ou é a Bíblia.

PS. Marião, te devo essa. Abração cara!



 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 12h33
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O ranço

Era domingo. Ele levantou cedo e foi para cozinha. Sua avó tinha feito café. Estava com fome. Muita. Sentou na mesa e sua avó deu pão e café preto. Não tinha leite. Não tinham dinheiro para comprar. Mordeu o pão e sentiu um gosto ruim. Reclamou. "A margarina tá rançosa, mas não tem outra" disse sua avó. Mas estava com fome e comeu. Tudo. Lavou a cara e foi pára o quintal ver sua cadela. Sentou no sol porque tinha frio e tinha preguiça. Sua cadela veio em busca de carinho. E sentia aquele gosto ruim. "Ranço? É, ranço" pensou. E pensou na sua mãe. Quase não via ela. Não saia mais da fabrica. Desde que o seu pai foi embora. Quando perguntava sua avó dizia "Ela tem que trabalhar para trazer comida para casa" e só. E pensou que poderia ficar sem comer só para ver a sua mãe mais vezes. E pensou no seu pai. Porque ele não vinha mais visita-lo? "Será que ele não gosta mais de mim?" pensou. E abraçou forte a sua cadela. E lembrou do Tiquinho. Tiquinho era o irmão do Duda, seu amigo. E Tiquinho estava com meningite. Epidemia. E estava no hospital. Foi para a rua procurar o Duda. Seu melhor amigo. Viu o movimento das pessoas que vinham da feira. Um homem na rua lavava o carro. E pessoas passavam na rua segurando bíblias. E viu as viuvas. Naquela época andavam de preto. E outro menino jogava bola, sozinho. Mas não viu o Duda e foi para a casa dele, chama-lo. E reclamou: "Droga de gosto ruim!" Viu um montão de gente na porta da casa do Duda. Pensou que poderia ser uma festa. "Mas é tão cedo" pensou. Homens de terno. Mulheres de vestido. Todos de preto. Foi entrando. Todos falavam baixo. E as vozes misturavam-se com choros. Choros quietos. A casa estava cheia. Muita gente no quintal, na sala e na... cozinha. Lá tinha mais gente. Foi olhar. Da porta. E viu. Encostado na geladeira. Uma tampa de caixão. Branco. Engoliu seco. O ranço. Entrou de vez. Viu o Tiquinho. Dentro do caixão branco. Em cima da mesa da cozinha. E parou ao seus pés. Pezinhos de bebê. E olhava o rosto dele. Foi quando percebeu o olhos do Tiquinho. Estavam um pouquinho abertos. E estavam olhando para ele. "Será que ninguém percebeu que os olhos do Tiquinho estavam abertos? Porque ninguém fecha eles?!" pensou. Para certificar-se ficou se mexendo. Ia para a direita do caixão e os olhos o seguiam. Ia para a esquerda e os olhos o seguiam. E pensou: "Porque eles me seguem?!" O Tiquinho era tão novo. Não tinha uma ano. "Ele nem tinha entrado na escola. Eu pensei que só os adultos morriam" E uma mulher falou: "Vai virar anjinho" E viu a mãe dele chorando. E sentado numa cadeira, sozinho, estava o seu amigo. Duda, o seu amigão. Que chorava. Muito. Os dois se olharam e ele ficou muito triste pelo amigo e pensou: "Eu podia dar um abraço nele, né?" Mas ele só tinha dez anos. Nunca tinha abraçado um amigo. "Como se abraça um amigo?" pensou. E os dois se olharam de novo e pensou: "É melhor não" E lembrou do gosto. Do ranço. E pensou na vida. E na morte. Na sua mãe. E no seu pai. Na sua cadela. No seu mundo. E saiu. Foi para a rua e sentou na guia. E chorou. Como nunca tinha chorado.

E sentiu a vida como nunca tinha sentido.Chorou por ele e pelo mundo. E sentiu aquele gosto forte. Da vida.

(Jarbas Capusso Filho)



 Escrito por Jarbas Capusso Filho às 10h28
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